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DOCES GRÃOS E LIQUIDO ESPIRITUALIZANTE: CANA, AÇÚCAR E AGUARDENTE NAS ILHAS DE CABO VERDE IDEIAS FEITAS E REALIDADES DOCUMENTAIS

Maria Manuel Ferraz Torrão
Centro de História – Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)mmanueltorrao@hotmail.com

A história do cultivo do açúcar nas ilhas de Cabo Verde nunca foi feita de forma sistemática. As esparsas e confusas informações documentais sobre a temática têm criado uma série de mitos e imprecisões que se torna necessário clarificar. Efetivamente, desde o século XVI até ao século XX, surgem nas fontes históricas (documentação avulsa, descrições e relatos de viajantes, relatórios escritos e cartográficos das missões científicas) menções ao cultivo de cana-de-açúcar e ao consumo de aguardente de cana. Assim, durante muito tempo, em obras gerais sobre a história destas ilhas, era mencionado constantemente que ai se cultivava cana-de- açúcar, e que estas ilhas haviam mesmo servido como “laboratório de aclimatação” da espécie, antes da experiência do seu cultivo em outras terras tropicais.
À luz das fontes existentes, este estudo propõe-se contribuir para o esclarecimento possível da história do cultivo da cana e do fabrico do açúcar e da aguardente nestas ilhas, e para o uso que era dado quer aos doces grãos, quer ao líquido espiritualizante. Procurar-se-á contextualizar o cultivo desta planta com o aproveitamento dos saberes tradicionalmente adquiridos sobre as terras mais rentáveis a fazer medrar, as melhores técnicas a utilizar para a produção da aguardante, a rentabilização do trabalho escravo nos trapiches e até as cantigas de trabalho transmitidas de geração em geração para auxiliarem os trabalhadores no duro trabalho trapicheiro.
Numa segunda parte deste estudo, tentar-se-á fazer uma identificação concreta das ilhas e dos terrenos onde se cultivava esta planta e consequentemente se produzia açúcar, melaço e aguardente e cruzar estes dados com fontes cartográficas. Estas poderão ser um excelente instrumento de trabalho para contribuir para uma organização mais metódica dos dados existentes.
Utilizando como base para este trabalho as cartas produzidas nos séculos XIX e XX pela Comissão de Cartografia, arquivadas na Cartoteca do Centro de História e no Centro de Informação e Documentação do IICT, procurar-se-á cruzar as informações escritas, acima mencionadas, com as cartográficas. Uma breve observação de vários mapas do século XIX e de cartas agrícolas do século XX (algumas das quais produzidas já pela Junta de Missões do Ultramar) permitiu, por um lado, verificar a articulação entre os relatos e as descrições recolhidas e a própria toponímia referida nas cartas, e por outro, verificar quais os terrenos que as missões cientificas identificavam como destinados ao cultivo de diferentes plantas, nomeadamente à da cana-de-açúcar.

Palavras-Chave: Açucar, cana de açucar, aguardente, cartografia, Cabo Verde

Nota Biográfica
Maria Manuel Torrão Investigadora do Centro de História do IICT. Doutorada em História pela Universidade dos Açores, especializou-se em temáticas relacionadas com a história Atlântica, particularmente com história das ilhas de Cabo Verde, tendo defendido uma tese sobre o Tráfico de escravos entre as ilhas de Cabo Verde e a costa da Guiné e a América Espanhola. Membro, desde 1987, da equipa luso-caboverdiana que elaborou os vários volumes da História Geral de Cabo Verde tem, igualmente, integrado diversos projectos interdisciplinares em curso no Departamento de Ciências Humanas do IICT ligados com a história da Comissão de Cartografia e com a evolução dos conhecimentos científicos, nomeadamente a nível da evolução do conhecimento científico nas ilhas de Cabo Verde.