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A INVISIBILIDADE DA MORTE ENTRE POPULAÇÕES MIGRANTES EM PORTUGAL

Clara Saraiva
Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)
smc@fcsh.unl.pt

Apesar do interesse suscitado pela recente condição de Portugal enquanto país de imigração, têm sido negligenciadas algumas questões importantes relacionadas com os estados de sofrimento e morte – ‘estados de aflição’ – dos imigrantes. A morte, em particular, é um tema difícil mas crucial que não tem sido tocado nos estudos sobre imigração.
Como é que os imigrantes percepcionam a morte e a incorporam na conceptualização da diáspora? Como é que os diferentes grupos de imigrantes conceptualizam o sofrimento e a morte nos outros grupos? Numa sociedade ocidental em que a morte se tornou um tabu, este distanciamento face ao último rito de passagem da vida pertence à esfera do mito e do preconceito – a invisibilidade da morte. No entanto, para os próprios imigrantes, é uma realidade com que têm de lidar e que frequentemente determina o tão ambicionado regresso temporário a casa. A morte é aqui vista não apenas como um momento no tempo, mas como um processo, que envolve estados emocionais específicos e que desencadeia o uso de rituais para lidar com a inevitável angústia que tende a adquirir aspectos ainda mais complicados quando se está longe de casa.
A morte é uma dimensão onde a abordagem transnacional é obrigatória, já que encerra uma intensa circulação, não apenas de bens materiais e riqueza, mas também de universos significativos e simbólicos que circulam juntamente com os bens e as pessoas: o corpo, mas também os espíritos e as relações com o outro mundo que as pessoas trouxeram para a diáspora. A partir de estudos de caso dos guineenses e cabo verdianaos imigrantes em Portugal, esta comunicação pretende desconstruir noções preconceituosas acerca do que acontece aos mortos imigrantes e olhar a “gestão da morte”, incluindo representações simbólicas bem como aspectos práticos, tais como os processos legais para repatriamento dos corpos

Palavras-chave:

Nota biográfica
Clara Saraiva, Investigadora Auxiliar do Instituto de Investigação Científica Tropical,  docente convidada no Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa,  e investigadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA). Foi também Professora convidada na Brown University (EUA, 2001-2002 e 2008). Faz parte da direcção do SIEF (Société Internationale d´Ethnologie et Folklore), do GIS (Grupo Imigração e Saúde) e da Associação Portuguesa de Antropologia. Pesquisa na área da Antropologia da Religião, nomeadamente religiões afro-brasileiras, e concepções e rituais de morte na Guiné-Bissau e com populações migrantes em Portugal. Tem publicações em revistas nacionais e estrangeiras sobre a morte, migrações, terapias e religiões transnacionais.