3.3

O RECRUTAMENTO DOS DIRIGENTES DO PAIGC (1956 – 1980)

Ângela Sofia Benoliel Coutinho
CesNova – UNL / IPRI – UNL
coutinhoangela@hotmail.com

De acordo com as fontes oficiais, o PAIGC foi fundado na clandestinidade em Bissau, a 19 de Setembro de 1956. Até 1960, foi o Partido Africano para a Independência (PAI) e actuou unicamente na clandestinidade. Nesse ano, foi criada uma base em Conakry e teve início a preparação da ação armada. Em 1963 o PAIGC iniciou a luta armada no território da atual Guiné-Bissau.
Apesar de não ter sido o único movimento que lutou pela independência da Guiné-Bissau, foi o único que levou a cabo uma ação bem sucedida nos planos militar e diplomático. Em 1966, pensa-se que cerca de metade do território da Guiné-Bissau estava sob seu controlo e intensificou-se então a reorganização económica, social e política destes territórios, as chamadas “regiões libertadas”.
Foi também preparado um plano de invasão militar do arquipélago de Cabo Verde com o apoio do governo cubano, apoio este que foi retirado após a morte do comandante Che Guevara na Bolívia. Os quadros cabo-verdianos passaram então a intervir de forma mais direta no terreno de guerra guineense, a partir de 1968.
No ano de 1972, organizaram-se eleições nas “regiões libertadas” da Guiné-Bissau, com vista à constituição da Assembleia Nacional Popular, que devia proclamar unilateralmente a independência do país. Esta proclamação foi feita a 24 de Setembro de 1973, após o assassinato do líder histórico do PAIGC, Amílcar Cabral, a 20 de Janeiro do mesmo ano, em Conakry. A independência da Guiné-Bissau foi então reconhecida pela maioria dos países da ONU.
Alguns meses mais tarde, a 25 de Abril de 1974, houve um golpe de Estado militar em Portugal, que viabilizou as negociações com vista à independência de Cabo Verde, levadas a cabo pelos governos provisórios em Portugal. O PAIGC dominou então as outras forças políticas presentes no arquipélago, surgidas sobretudo após o 25 de Abril, à exceção da UPICV, e a independência de Cabo Verde foi proclamada a 5 de Julho de 1975.
Este partido criou então um sistema original de partido único no poder, com um mesmo partido para dois estados independentes.
Com base em pesquisa arquivística efetuada na Guiné-Bissau, em Cabo Verde e em Portugal, e recorrendo também a fontes orais, esta comunicação apresenta os traços principais das trajetórias sócio-políticas dos dirigentes do PAIGC, dos fundadores oficiais e dos membros do Conselho Executivo da Luta, antigo Bureau Político, eleitos até 1977, data do último congresso deste partido.
De entre as principais conclusões a que se chega, é de salientar o facto de que a maioria dos membros fundadores já não integravam os órgãos máximos de direção partidária aquando da independência dos dois países. É também revelada uma hegemonia guineense a este nível, contrariando todos os estudos publicados que abordaram esta questão.

Palavras-chave: Dirigentes, PAIGC, recrutamento

Nota biográfica
Ângela Sofia Benoliel Coutinho obteve o doutoramento em História da África Negra Contemporânea pela Universidade de Paris I – Panthén-Sorbonne, em 2005. De 2001 a 2003 lecionou na Universidade de Paris X – Nanterre, em França. Entre 2004 e 2007 foi docente no ensino superior privado em Cabo Verde e desde 2007 é bolseira de pós-doutoramento da FCT, sendo investigadora no CESNOVA – FCSH – Universidade Nova de Lisboa.