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UNIDADE: FORÇA-MOTRIZ E FACTOR DE DESAGREÇÃO NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ E CABO VERDE (1959-1975)

José Augusto Pereira
Instituto de História Contemporânea FCSH – UNL
Jadpereira2@yahoo.com.br

A Guiné-Bissau proclamou unilateralmente a independência em Madina do Boé a 24 de Setembro de 1973. Quanto a Cabo Verde, a transferência da soberania portuguesa para os novos representantes dos povos das ilhas decorreu a 5 de Julho de 1975 na Cidade da Praia. Unidos por um passado colonial comum, os territórios de Cabo Verde e Guiné lograram a obtenção da independência no culminar de um processo que teve como força motriz e traço de união o PAIGC. Sob a divisa “Unidade e luta”, este movimento independentista de cariz bi-nacional procurou congregar militantes de várias origens étnicas em torno da luta contra o colonialismo português, pela independência da Guiné e Cabo Verde e por uma futura união política entre os dois países. O lema do PAIGC acaba por condensar o programa político idealizado pelo seu leader máximo, Amílcar Cabral, alguém que se afirmava consciente dos laços históricos que uniam as duas colónias e que se encontrava imbuído do espírito pan-africanista que varria o continente africano na dobragem da primeira metade do século XX. Tal programa político, defediam os dirigentes independentistas, deveria desenvolver-se na Guiné e em Cabo Verde, num percurso que, não excluindo o diálogo com as autoridades metropolitanas, deveria conduzir as populações da mobiilização política ào desencadear de acções armadas. O modo como o PAIGC prosseguiu essa estratégia em território guineense, bem como as tensões surgidas entre as duas comunidades nacionais, sem esquecer as circunstâncias e as motivações que envolveram o assassinato de Amílcar Cabral, têm merecido a atenção de autores oriundos de várias áreas do saber. Contudo, a acção do PAIGC relativa a Cabo Verde tem permanecido na sombra. A comunicação que nos propomos apresentar pretende fazer luz sobre a acção do PAIGC em Cabo Verde, mapear a sua fragil estrutura política, elencar e compreender os constrangimentos que ditaram a sua difícil implantação no arquipélago. Pretendemos, no fundo, desenvolver o contexto em que teria lugar um possível desembarque de guerrilheiros do PAIGC nas ilhas, uma intenção manifestada pela cúpula do PAIGC até à morte de Amílcar Cabral, tendo sido equacionados o momentoo chave para o seu início e a obtenção do suporte necessário à sua execuçao. Todo este cenário configura um impasse em Cabo verde, em contraste com os avaços registados pelo PAIGC na Guiné no campo militar, uma siuação que serviu de argumento à contestação levada a cabo por vários elementos da ala cabo-verdiana ao secretário-geral. Este fenómeno, de que daremos igualmente conta na comunicação, verificou-se ao mesmo tempo que, entre a comunidade guineense, em maioria no PAIGC, despontava um indisfarçável mal-estar face a uma alegada presença maioritária de militantes cabo-verdianos nos escalões superiores do movimento. Estava em causa o princípio maior do partido – “Unidade e Luta” – quer do ponto de vista do desenvolvimento harmonioso da luta perconizado por Amílcar Cabral, quer pela convivência cada dia mais difícil entre as duas comunidades, um sintoma que deve ser destacado caso pretendamos caracterizar o PAIGC nas vésperas do desaparecimento físico de Amílcar Cabral.

Palavras-chave: Anti-colonialismo, Guiné, Cabo Verde, PAIGC, movimentos independentistas

Nota biográfica
José Augusto Pereira. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1999) e mestre em História Contemporânea (História doséculo XX) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova deLisboa (2009). A sua dissertação, O PAIGC perante o dilema cabo-verdiano (1959-1974) foi distinguida em 2010 com uma menção honrosa pelo júri do Prémio deHistória Contemporânea Dr. Victor de Sá, da Universidade do Minho. É autor do trabalho A economia de Cabo Verde no contexto do Estado Novo (1940-1960), publicado pela revista Ler História em 2004.