4.2

CLARIDADE – FAZER LUZ, ADENSAR AS SOMBRAS

Sérgio Neto
Colaborador Investigador do
Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra
sgdneto@gmail.com 

Os últimos anos têm assistido a um crescente e renovado interesse acerca do papel desempenhado pela revista Claridade (1936-1960) na construção (ou não) da nação cabo-verdiana. Na verdade este periódico, ao seu tempo muito elogiado, mas também criticado, conseguiu um lugar raramente atingido por qualquer outra publicação no espaço colonial português do século XX. Por outro lado, em Cabo Verde, adquiriu uma aura quase mítica, facto que, por vezes, dificulta uma análise a um tempo desapaixonada e distanciada. Certamente que contribui o facto de não existir uma obra de fundo que aborde esta questão sob os seus variados prismas e integre a longa cronologia da revista nas sucessivas conjunturas cabo-verdianas, portuguesas, euro-africanas e mundiais, que compreendem os anos 30, 40 e 50. Em suma: uma obra que debata o fim dos jornais de algumas elites africanas sedeadas em Lisboa, perante o fortalecimento da Ditadura Militar e do Estado Novo; que explicite as relações dos “claridosos” com alguns vultos portugueses da época; que esclareça a sua ligação à formação dos jovens cabo-verdianos, alguns deles futuros membros do PAIGC; que relacione a sua produção com o nascente e emergente nacionalismo; que integre a sua voz literária/científica social com o meio envolvente; que apreenda as relações com o Brasil, no contexto mais alargado do espaço ilhéu cabo-verdiano; que siga o seu percurso após o fim da revista, durante o período da Guerra Colonial/Guerra de Independência e após 1975.
Assim, sem esquecer a necessária alusão a alguns trabalhos contemporâneos da publicação do mencionado periódico, a presente comunicação propõe fazer um trajecto crítico pelos últimos contributos versando a questão, a fim de avaliar o estado da arte e a existência ou não de um debate entre teses antagónicas, mas também complementares. Ou seja, partir do trabalho pioneiro do escritor Manuel Ferreira – que reeditou Claridade, quando do cinquentenário do início da sua publicação (1986) –, e chegar até às obras mais recentes e diversas do estudioso de literatura Osvaldo Silvestre, dos sociólogos Gabriel Fernandes e Carlos dos Anjos, do antropólogo Manuel Brito-Semedo, e dos historiadores Víctor Barros e Ângela Benoliel Coutinho, entre outros.

Palavras-chave: Claridade, literatura, historiografia, debate

Nota biográfica
Sérgio Neto é professor do Ensino Básico e Secundário, Doutorando da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e Investigador Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20). Tem vindo a desenvolver investigação sobre a História político-cultural de Cabo Verde, que conheceu resultados no livro “Colónia Mártir, Colónia Modelo” e em alguns artigos publicados em Portugal e no estrangeiro