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QUANDO E ONDE COMEÇA(M) O(S) CRIOULO(S) ? HOJE E ONTEM

Jean-Louis Rougé
Departamento das Ciências da Linguagem
Universidade de Orléans
jean.louis.rouge@univ-orleans.fr 

O surgimento dos crioulos guineense e caboverdiano já foi discutido; a alegada anterioridade dum desses sistemas deu lugar a divergências (Teixeira da Mota, 1954; Carreira, 1972, 1983; Rougé, 1986, 1994; Couto,1992; Jacobs, 2010) que muitas vezes ocultam um dos verdadeiros interesse cientifico da questão : a identificação e a categorização das variedades linguísticas emergentes.
As primeiras menções da palavra « crioulo » (« créole » ou « criollo ») aplicada a uma realidade linguística datam do fim do Século XVII e dizem respeito a sistemas oriundos do português, utilizados na costa Africana entre o Rio Senegal e a Sierra Leoa (La Courbe, manifesto dos capucinhos de Bissau, cartas de dom V. Portuense…). Na origem desses sistemas encontra-se comcerteza  a utilização muito cedo de intérpretes africanos nas costas africanas (c.f. Ca da Mosto, 1455 ; Donelha, 1625 ; Dom Frei V.Portuense 1694).
Textos de missionários do final do Século 17 documentam o recurso aos interpretes através do crioulo  para a comunicação com os escravos do interior da ilha de Santiago nomeadamente no que diz respeito a cristianização (Carreira, 1974).
Entretanto, nos textos mencionados, a palavra « crioulo » designa, tanto na Guiné que em Cabo Verde, realidades linguísticas variadas : « interlinguas » do português, mais ou menos estabilizadas, isto é, em processo de pidginização (Rougé, 1994; Pereira, 2005) mas também, línguas primeiras de identificação de comunidades humanas. Para um linguista, responder à questão do surgimento do crioulo precisa que primeiro se defina o que se chama crioulo. Assim a pergunta ”quando e onde começa(m) o(s) crioulo(s) ?” não se dirige aqui a uma (pre)suposta anterioridade caboverdiana ou guineense mas quer colocar uma questão fundamental para (socio)linguística:  a identificação das línguas.
Essa questão primordial para a explicação do surgimento do crioulo é também essencial para a compreensão da realidade linguística dos países crioulófonos através à história até hoje.
O desenvolvimento do “kriol” no continente no mesmo tempo como língua franca na costa Africana e como língua das praças é atestada até o século XIX (Rougé 1992, Havik 2007). A distância ao português e a mais ou menos opacidade das variedades coexistentes transparecem nas denominações das mesmas ( kriol lebi,  kriol fundu ).    
Hoje a presença, tanto na Guiné como em Cabo Verde, entre outras variedades chamadas “descrioulizadas”, “aportuguesadas”, “mesolectais”, “urbanas”  colocam de novo a  pergunta  formulada de outra maneira: como distinguir o “crioulo aportuguesado” do “português crioulizado”? Responder a essa pergunta para todos os que desejam utilizar o crioulo na educação ou em qualquer projeto de desenvolvimento que precisam da estandardização da língua é uma necessidade. Nesta comunicação apresentaremos os vários aspectos dessa questão através da história assim como os instrumentos à disposição da linguística e da sociolinguística para propor repostas.

Palavras chave: Crioulo, língua franca, variedades linguísticas