4.6

“O MESTIÇO É QUE FOI O CRIADOR DA SOCIEDADE E DA CULTURA CABOVERDIANA”: REFLEXÕES EM TORNO DO PENSAMENTO DE GABRIEL MARIANO

Cátia Miriam Costa
Universidade de Évora
Centro de Filosofia da Ciência/Universidade Lisboa
catiamiriam1@gmail.com

Licenciado em direito e juíz, Gabriel Mariano notabilizou-se, também, como poeta, contista e ensaísta. O seu mérito foi reconhecido através da atribuição de vários prémios de criação literária, entre estes o último foi concedido em 1991 pela Fundação Marquês de Valle Flor. As suas obras foram traduzidas em várias línguas, como o francês, o italiano, o espanhol, o sueco e o russo. Nascido em Maio de 1928 e falecido em Fevereiro de 2002, continua a ser um dos intelectuais de referência na construção da identidade caboverdiana. Poemas como Capitão Ambrósio, Louvação da Claridade, Doze Poemas de Circunstância e contos como Vida e morte de João Cabafume e O rapaz doente continuam a ser uma referência na literatura caboverdiana, tendo o autor publicado em títulos de referência social, política e cultural como Claridade e Suplemento Cultural, dos quais foi co-fundador, e outros como Cabo Verde, Raízes, Mensagem ou “Artes e Letras” do Diário de Notícias.
Enquanto juiz passou por Cabo Verde, Angola, Moçambique e Portugal, adquirindo, por isso, diferentes perspectivas daquilo que era o regime colonial e conviveu com diferentes culturas que o fizeram questionar a existência de unidades, continuidades e descontinuidades no que constituíam as então Províncias Ultramarinas. No final da sua vida, quando o conheci e entrevistei, tinha formado um interessante articulado de ideias, revelador de um pensamento que se centrava não apenas nos factos ocorridos, mas também na sua narrativa pessoal e na sua experiência estética, lendo e interagindo com criadores e intelectuais do que conjunto que, simplificando, designaremos por lusofonia. Sobre a identidade, a memória, a cultura e sociedade caboverdianas apresentava ideias muito claras sobre os percursos reais e possíveis de um conjunto sócio-político que, desde cedo, foi construindo uma noção de especificidade, ancorada num projecto de nação (com independência política ou não) ao início utópico, mas sempre presente nas formulações em torno do modo como os caboverdianos se viam a si próprios.
O nosso objectivo é, pois, reflectir sobre o pensamento de Gabriel Mariano relativamente à formação nacional e identitária de Cabo Verde, tendo como pontos de partida o ensaio que publica em 1959, Do funco ao sobrado ou o mundo que o mulato criou e a entrevista feita ao autor, terminada a 19 de Março de 2000 e publicada no jornal Artiletra com o título “Para mim, o mestiço é que foi o criador da sociedade e da cultura caboverdianas”, em Julho/Agosto de 2003.

Palavras-chave: Mestiço, cultura, sociedade, especificidade, nação

Nota biográfica
Cátia Miriam Costa Licenciada em Relações Internacionais e mestre em Estudos Africanos no Instituto Superior Ciências Sociais e Políticas – UTL, estando a terminar uma tese de doutoramento sobre utopia colonial e discursos ficcionais e reais, na Universidade de Évora.  É membro do Centro de Filosodia das Ciências da Universidade de Lisboa e do Conselho de Redação de El Jardín de la Voz – Biblioteca de Literatura Oral y Cultura Popular, Instituto Investigaciones Filológicas de la UNAM/CEntro de Estudios Cervantinos. Tem participado em várias conferências internacionais e publicado em obras colectivas e revistas científicas em Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde e Reino Unido