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A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA CABO-VERDIANA NA LITERATURA E O BRASIL COMO PARADIGMA IMAGINÁRIO: EM BUSCA DE PASÁRGADA

Érica Antunes Pereira
Universidade de São Paulo
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
erica.antunes@gmail.com 

O processo de construção da identidade cabo-verdiana como entidade autônoma da cultura do colonizador pautou-se pela proximidade com dois tipos de discurso: o jornalístico e o literário. Grandes escritores cabo-verdianos, como Eugénio Tavares, por volta de 1900, já propunham uma autonomia para Cabo Verde, país arquipelágico independente de Portugal somente em 05 de julho de 1975.
O contato dos escritores e poetas cabo-verdianos com a produção literária brasileira teve início muito antes da independência, como comprova a Revista Claridade, publicada de1936 a 1960 com periodicidade não regular e formada por uma geração que “preferiu imaginar-se não mais à luz do modelo colonizador ou de uma literatura colonial apologética da figura do herói navegador, e escolheu mirar-se em outro paradigma cultural, forte, irmão, independente: o Brasil dos mulatos, malandros e heróis ignorados” (Gomes, 2008, p. 113).
Nesse diálogo estabelecido, é provável que a obra de Manuel Bandeira tenha sido uma das vias que mais favoreceram o referido processo de identificação dos autores cabo-verdianos com o Brasil, considerado então uma espécie de “irmão mais velho” cujo sistema literário, já solidificado nos termos propostos por Antonio Candido (1997, p. 15), tornou-se alvo de interesse por simbolizar a ruptura cultural e política com o império português.
Adepto de uma abordagem poética do cotidiano, agregando às suas obras imagens “desentranhadas” (Bandeira, 1984, p. 19) de pequenos acontecimentos e de cenas pitorescas, fato que cria uma tensão perceptível conforme une as pontas do ambiente rural com o urbano, do particular com o universal, da linguagem prosaica com a formal, do gênero poético com uma prosa contida e de notícia, Manuel Bandeira, criador da imagem da “Pasárgada”, tem sua produção literária retomada por um grande número de autores cabo-verdianos, podendo ser referidos, entre outros, Osvaldo Alcântara (pseudônimo de Baltasar Lopes), Jorge Barbosa, Ovídio Martins, Vera Duarte, Filinto Elísio e José Vicente Lopes.
Nosso objetivo, nesta apresentação, é demonstrar que os escritores e poetas de Cabo Verde, ao se reportarem à poesia bandeiriana, recriando-a ou adaptando-a ao seu país, constroem também, via literatura, uma nova (micro)história, permitindo que pesquisadores efetuem a recomposição da realidade socioeconômica, cultural e identitária de uma época.

Palavras-chave: Estudos comparados, Cabo Verde, Brasil, intertextualidade, identidade

Nota biográfica
Érica Antunes Pereira é pesquisadora em nível de Pós-Doutoramento na Universidade de São Paulo (USP), onde, atualmente, desenvolve o projeto intitulado “Travessias atlânticas: a literatura de Cabo Verde lê o Brasil”, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e sob a supervisão da Profa. Doutora Simone Caputo Gomes. Na mesma universidade (USP), defendeu sua tese de Doutoramento em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa intitulada “De missangas e catanas: a construção social do sujeito feminino em poemas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e são-tomenses”, com bolsa FAPESP, sob a orientação da Profa. Doutora Tania Celestino de Macêdo. Além da formação na área de Letras, a autora é advogada especializada em Direito Civil e Processual Civil, tendo ainda cursado a Escola da Magistratura.