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MEMÓRIAS DESCUIDADAS: A ESTRELA NEGRA NA POÉTICA CRIOULA DE ENEIDA NELLY

Dejair Dionísio
Universidade de Cabo Verde
Universidade Estadual de Londrina
dejair.dionisio@docente.unicv.edu.cv  

Primeiro de maio de dois mil e onze, Campo de Concentração do Tarrafal (Chão Bom). A visita guiada ao campo que acontece todos os anos, nesse dia, é a marca de um dos momentos de ruptura com o sistema colonial que vigorou até 1975. Nelly deu aos visitantes, uma mostra de que o pensamento de Cabral persiste, pela via poética, em textos lidos em homenagem ao herói e lembrou ainda Kaoberdeano Dambará. A apresentação em vídeo (que será compartilhada juntamente com a análise dos poemas aqui citados), dessa que talvez tenha sido a última imagem em que a autora lê um dos seus textos inéditos, demonstra o quanto há para ser pesquisado e dito sobre esse herói plurinacional – Amílcar Cabral – e aqueles que ousaram apresentar um outro Cabo Verde via o “eu-lírico de Dambará”. Para além de, relembrando Lura: “nos poemas de Nelly encontrarmos uma intensidade e profundidade que são admiráveis para uma poetisa tão jovem”, podemos perceber que a mística que ronda a poesia cabo-verdiana de ter dado as costas a África, não persiste em todos os autores e autoras. A autora também diria que o lançamento em Lisboa do “Sukutam” era o corolário de uma longa luta durante a qual se sentiu mais apoiada, acarinhada e solicitada, do que na sua própria terra natal. “Sentia-me como uma filha que cresce no seio de uma família e ninguém nota esse crescimento. Em Lisboa, sobretudo por parte de colegas e amigos cabo-verdianos, sentia que valorizavam a minha escrita e a aplaudiam. E todo esse apoio levou-me a desejar muito este dia que hoje celebramos o lançamento”. Nelly esperava “Sukutam” fazer a sua peregrinação junto dos leitores e da crítica. Essa peregrinação junto à crítica, que não pode ser descuidada, nos dará a conhecer essa que – mesmo não estando entre nós – representa a força poética dessa geração de poetisas e poetas que não descuidaram de trazer para o imaginário atual a força poética que ronda o pensamento libertário e societário de Amílcar Cabral.

Palavras-chave: Poesia afro-caboverdeana, Memória; Cabo Verde, Kaoberdeano Dambará, Amílcar Cabral

Nota biográfica