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CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: ITINERÁRIOS PELA ARQUITECTURA MODERNA LUSO-AFRICANA (1944-1974)

Ana Vaz Milheiro
ISCTE_IUL
Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa
Dinâmia_CET
avmilheiro2@gmail.com

Cumprindo o desejo de que Portugal é “no mundo, essencialmente uma potência africana” (Armindo Monteiro, 1935), a fase final da colonização portuguesa em África irá acelerar os processos de ocupação do território. O Estado Novo é responsável por um conjunto de projectos urbanos e de equipamentos públicos que transformam a maioria das cidades ultramarinas, reflectindo-se na contemporaneidade. Os contributos para esta alteração da paisagem construída vêm dos organismos sediados em Lisboa, sob tutela do Ministério do Ultramar (caso muito particular do Gabinete de Urbanização Colonial criado por Marcelo Caetano em 1944), das Repartições de obras públicas locais (onde se assiste à instalação progressiva de técnicos especializados) e também de particulares que investem na então África Portuguesa, através da construção de equipamentos (designadamente de lazer, como cine-teatros, entre outros), contratando profissionais metropolitanos ou já fixados nestas regiões.
Este ensaio procura mapear algumas destas obras realizadas em Cabo Verde e na antiga Guiné Portuguesa, a partir do final da segunda guerra mundial e até às independências dos dois países. Consideram-se as realizações desencadeadas ainda durante a Primeira República (1910-1926), que constituirão um arranque para as estratégias do Estado Novo, através do reforço das opções desenhadas (acentuação dos propósitos de sectorização das cidades e sua consequente monumentalização, continuação da implementação de redes sanitárias e de ensino primário, infraestruturação genérica dos territórios coloniais, etc.).
Inicia-se a exposição pelas comemorações do 5º centenário da presença portuguesa na Guiné (1946), que assinalam uma profunda reestruturação do território “urbanizado” guineense e prossegue-se até às obras particulares erguidas em Bissau, casos da sede da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (Jorge Chaves, 1949-1954), da Administração do Porto de Bissau (Carlos Tojal, Manuel Moreira e Carlos Roxo, 1968) ou da delegação da TAP, já dos anos de 1970. Analisa-se igualmente a alteração dos paradigmas estético e arquitectónico das obras do Gabinete de Urbanização realizadas ao longo das três últimas décadas de presença portuguesa.
Uma leitura paralela será realizada para Cabo Verde, designadamente nas obras mais tardias da colonização portuguesa, comparando, dentro da produção da Direcção de Serviços de Urbanismo e Habitação (Direcção Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar), edifícios como o actual Liceu Ludgero Lima (antigo Liceu Gil Eanes, Eurico Pinto Lopes, 1961) ou o Hospital de São Vicente (Lucínio Cruz, 1972), ambos no Mindelo, com o complexo das instalações do Comando Naval, também na capital de São Vicente (António Saragga Seabra, 1961), ou o Seminário da Praia (Alfredo da Silva e Castro, 1962). Trata-se de confrontar um pensamento mais conservador – dentro da linha “oficial do Estado” – , com alguma inovação linguística, manifesta através de uma expressão “organicista” e de profundo respeito pelo Lugar, que coloca esta região no eixo da cultura arquitectónica metropolitana, pós-inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (1955-1961). Dentro de um entendimento moderno mais canónico, ou ortodoxo, serão naturalmente considerados o Comando Naval do Mindelo e o Centro de Estudos da Praia (actual Reitoria da Universidade de Cabo Verde).
Com este itinerário é possível identificar uma arquitectura moderna cabo-verdiana e guineense, concretizada durante o período colonial, de qualidade equiparável à de outras regiões tropicais e constituindo um património referenciável no futuro. Pretende-se igualmente contribuir para colocar a historiografia dedicada à arquitectura moderna, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, no mesmo plano de conhecimento de outros países africanos de língua oficial portuguesa, cujos estudos sobre a cultura arquitectónica recente avançaram antes.

Palavras-chave Arquitectura luso-africana, Estado Novo, Cabo Verde, Guiné-Bissau

Nota biográfica
Ana Vaz Milheiro (Lisboa, 1968). Licenciada (1991) e mestre (1998) em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da UniversidadeTécnica de Lisboa. Doutoramento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (2004). Docente do ISCTE- IUL e na Universidade Autonóma de Lisboa. Investigadora do Dinâmia-CET. Está a preparar pós-doutoramento. Investigadora Responsável pelo projecto “Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica”, apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, ref. PTDC/AUR-AQI/104964/2008.