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FRAGMENTOS DO IMPÉRIO: UM VISLUMBRE SOBRE A ARQUEOLOGIA ULTRAMARINA NA MISSÃO ANTROPOLÓGICA DA GUINÉ

Rita Juliana S. Poloni
ICS – Universidade de Lisboa / LAP – Universidade Estadual de Campinas
Julianapoloni@hotmail.com

Entre as Missões Antropológicas desenvolvidas pelo Estado Português em alguns de seus territórios ultramarinos durante a primeira metade do século XX, destaca-se a pequena Missão Antropológica da Guiné.
Muito embora tenha tido somente uma campanha preliminar, liderada por Mendes Correia, e mais duas chefiadas por Amilcar Mateus, responsável pela Missão, este empreendimento científico apresenta-se como um importante prolongamento do projecto de Ocupação Científica Ultramarina no âmbito das ciências sociais, projecto este pensado pelo próprio Mendes Correia e concretizado pelo Estado ditatorial do período.
As Missões Antropológicas, que objectivavam um conhecimento alargado do indígena, sob o entendimento da Antropologia preconizado por Mendes Correia, via nas pesquisas arqueológicas um campo complementar dessas investigações.
Muito embora ocupassem um lugar secundário nos objectivos das Missões, cujo foco principal insidia sobre as pesquisas antropobiológicas, as investigações arqueológicas têm um lugar próprio de subsistência no interior desses projectos científicos.  Ainda que considerada um conhecimento especulativo dentro dos propósitos estatais de estudo do indígena ultramarino, a Arqueologia persiste a despeito e, muitas vezes, por causa desse carácter específico a ela atribuída.
Perceber as relações entre a Missão Antropológica da Guiné, com menor visibilidade que as demais realizadas, e a produção científica de um campo que é claramente secundário em relação ao rol de pesquisas desenvolvidas nessas colónias é, assim, uma forma de compreender os projectos científicos estratégicos para o Ultramar e os diversos contextos coloniais de uma forma alargada procurando investigar toda a sua complexidade.
Se os contextos mencionados tiveram menor continuidade que as pesquisas desenvolvidas em Moçambique, Angola ou mesmo em Timor, ou foram menos privilegiados que as investigações em Antropobiologia ou Etnografia aí desenvolvidas, tal quadro não é um factor depreciativo desses elementos. As pesquisas realizadas na Guiné e no âmbito da Arqueologia manifestam interesses específicos nos projectos científico-estatais para o Ultramar que necessitam ser descortinados para que se possa compreender toda a sua dimensão estratégica.
Assim, o presente trabalho tem por objectivo caracterizar a produção arqueológica dentro da trajectória história da Missão Antropológica da Guiné, ressaltando, primeiramente, a complexidade deste projecto investigativo como um todo, quer seja em relação aos diferentes territórios investigados, quer seja através da variedade de objectivos científicos abraçados.
Buscar-se-á, a seguir, descrever o projecto específico para aquela colónia, o lugar da Arqueologia no contexto das pesquisas aí desenvolvidas, sua história e suas particularidades, bem como a importância do referido território no universo imperial português do período.
Dessa forma, espera-se contribuir para um conhecimento mais aprofundado do território da Guiné, do seu lugar dentro da história contemporânea portuguesa e do conhecimento científico ali desenvolvido no âmbito das Missões, abrindo novas perspectivas de entendimento da complexidade desses projectos científicos e políticos.

Palavras-chave: Missões, arqueologia, antropologia, colonialismo

Nota biográfica
Rita Poloni é atualmente estudande de doutoramento em Arqueologia na Universidade do Algarve onde desenvolve a tese intitulada “Expedições Arqueológicas nos Territórios de Ultramar: Uma visão da Ciência e da Sociedade Portuguesa do Período Colonial”. Possui ainda mestrado em Teoria e Métodos da Arqueologia, também pela Universidade do Algarve, e pos-graduação em Antropologia Social e Cultural pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.