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DOENÇAS PARASITÁRIAS EMERGENTES DE BIÓTOPOS AQUÁTICOS NA GUINÉ-BISSAU E SUAS REPERCUSSÕES EM SAÚDE PÚBLICA*

Fernanda Rosa, Maria do Carmo Nunes, Fernando Costa e Vítor Rosado Marques
Instituto de Investigação Científica Tropical
fhjrosa@gmail.com
Maria Virgínia Crespo
Escola Superior Agrária/Instituto Politécnico de Santarém
Yolanda Vaz, Telmo Nunes
Faculdade de Medicina Veterinária/Universidade Técnica de Lisboa
José Manuel Costa, António Castro e Lurdes Delgado
Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge/Centro de Saúde Pública Doutor Gonçalves Ferreira;
Jorge Seixas
Instituto de Higiene e Medicina Tropical
Jorge Sousa
Instituto Superior Técnico/ Universidade Técnica de Lisboa,
Maria do Carmo Horta
Escola Superior Agrária/Instituto Politécnico de Castelo Branco;
Martinho Cotor
Direcção Geral de Pecuária, Ministério da Agricultura e Pescas, Guiné-Bissau

Entre 2009 e 2010, no sentido de se conhecer a extensão das doenças parasitárias relacionadas com os ecossistemas dulçaquícolas de água doce, os moluscos potenciais hospedeiros intermediários (HI) envolvidos e a sua distribuição na bacia do rio Geba (Guiné-Bissau), realizaram-se prospecções de 53 colecções de água e a análise dos seus parâmetros físico-químicos; recolhas de amostras de solo; colheitas de potenciais HI e averiguação da infecção intramolusco; inquéritos a criadores de gado sobre o sistema de produção, acessibilidade e uso das colecções de água pelas populações locais; pesquisas de eliminação parasitária em bovinos (482 animais) e em crianças de cinco escolas do ensino básico (73 crianças).
A classificação dos biótopos identificados foi corroborada pela análise estatística multivariada realizada a alguns dos parâmetros físico-químicos avaliados, tendo-se reconhecido principalmente as tipologias: nascente, rio e bolanha (Nunes et al., 2012).
Nas amostras de solo colhidas em 37 dos biótopos identificados, verificou-se uma baixa variabilidade do valor do pH (CV=12%), 86% das amostras de solo apresentam um pH ≤5,5, 11% são pouco ácidos (pH entre 5,5 e 6,5) e apenas uma amostra situa-se na zona de neutralidade. Relativamente aos restantes parâmetros pesquisados (MO, condutividade, P, K, Ca, Mg, Na), a variabilidade é maior (>98%). O solo de Sintchã Bonco evidenciou um valor de pH mais neutro, condutividade eléctrica e teor em Na mais elevados. Neste biótopo nunca foram observados moluscos potenciais hospedeiros intermediários.
Os exemplares de potenciais HI coligidos em biótopos naturais e antropogénicos pertencem a seis espécies. A distribuição mais restrita refere-se aos moluscos Lymnaea natalensis e Biomphalaria pfeifferii apenas na área norte do sector de Contuboel (Rio Geba), enquanto as outras espécies (Bulinus do grupo forskalii, B. truncatus e B. globosus) têm uma distribuição mais alargada. As infecções intramolusco por Fasciola gigantica, paranfistomas e Schistosoma haematobium foram detectadas, embora com prevalências baixas.
De um modo geral, o sistema de produção nesta região está adaptado às condições ambientais, sendo influenciado pela sazonalidade e pelos ciclos agrícolas e apresentando práticas tradicionais bem definidas e constrangimentos relacionados com o tipo de economia em desenvolvimento.
A prevalência global de eliminação parasitária em bovinos foi de 68,26%. Identificaram-se ovos de helmintes e oocistos de protozoários, salientando-se as infecções provocadas por paranfistomas gastrintestinais e por Nematoda, envolvendo várias espécies. Observou-se ainda uma grande variabilidade espacial e sazonal na eliminação de ovos, no grau de infecção e nas co-infecções.
A prevalência da infecção por Schistosoma sp. em crianças variou entre 0,00% e 78,57%, sendo maior nas meninas. De acordo com os padrões da WHO, as crianças guineenses estudadas apresentaram um défice no crescimento, que poderá estar associado às infeções parasitárias observadas, entre outras causas.                        Estes resultados salientam a importância actual em produção animal e saúde pública dos parasitas emergentes dos ecossistemas aquáticos, permanentes e temporários, para onde as populações humanas e animais confluem nas suas actividades profissionais, domésticas ou básicas.

Palavras-chave: Trematodoses; biótopos aquáticos; bovinos; crianças; Guiné-Bissau

Referências Nunes et al. (2012). Factores ambientais relacionados com os habitats dos moluscos vectores de doenças parasitárias na Guiné-Bissau. Colóquio Internacional Cabo Verde e Guiné Bissau: Percursos do Saber e da Ciência, Lisboa, ISCSP-UTL, 21-23 de Junho de 2012.

* Estudo integrado no Projeto FCT PTDC/SAU-ESA/71246/2006 Dinâmica das doenças parasitárias emergentes de ecossistemas dulçaquícolas na bacia hidrográfica do Rio Gebe (República da Guiné-Bissau).

Nota biográfica
Fernanda Rosa, licenciada em Medicina Veterinária, Investigadora do IICT, desde 1992. Principais linhas de estudo: parasitas emergentes de biótopos aquáticos e as suas repercussões em saúde pública, e contaminação ambiental por parasitas de animais em meio urbano e em áreas naturais ( Guiné-Bissau, Cabo Verde e Portugal). Participação e coordenação de projectos de cooperação e de investigação e cerca de duas dezenas de trabalhos publicados.