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PRÁTICAS ALIMENTARES, ECONOMIA E EPIDEMIAS – UMA VISÃO SINTÉTICA DE CABO-VERDE ENTRE O SÉCULO XIX E OS INÍCIOS DO SÉCULO XX

Helena Sant’Ana
ISCSP – CAPP
hsantana@iscsp.utl.pt
Fernando Serra
ISCSP-CSPP
fserra@iscsp.utl.pt

Através de um modelo sintético de natureza interdisciplinar procura-se retratar a situação conjuntural económica e nutricional de Cabo Verde entre o século XIX e a primeira década do século XX. Tendo em conta os efeitos conjugados de quatro vectores heurísticos, dois de natureza geográfica – a localização no globo terrestre e a instabilidade climática – e dois de natureza histórico-sociológica – a tensão entre duas economias irredutíveis e conflituantes e a estratificação social de modelo quase medievo –, ensaia-se um esquema compreensivo assente nas seguintes asserções-chave: (1) A localização geoestratégica destas Ilhas transformou-as numa plataforma de armazenamento logístico de víveres e de produção económica de apoio em etapas historicamente precoces do sistema capitalista mundial (no apoio ao tráfico de escravos); (2) Esta função de apoio supôs a concomitante sedimentação de uma estrutura social hierárquica e senhorial, enquadrada por uma estrutura político-administrativa colonial; (3) O povoamento foi sendo garantido por práticas agrícolas de subsistência, fortemente sujeitas a arbitrariedades climáticas e a fragilidades ecológicas e indutoras de práticas alimentares genericamente deficitárias do ponto de vista nutricional.
Estas asserções traduzem, no seu conjunto, quatro dinâmicas históricas de longa duração, configurando um cenário estrutural global e incidindo todas, no período considerado, num dado ponto focal. (i) A dinâmica económico-produtiva de exploração capitalista, com função de apoio à economia-mundo em crescimento, marcou a origem histórica do povoamento de Cabo Verde pelas lógicas da opressão, da desumanização e da descontextualização cultural e identitária dos sujeitos; (ii) a dinâmica político-administrativa de vigilância e governabilidade, com funções de apoio à manutenção da estrutura colonial, pautou-se por práticas arbitrárias de exercício do poder e de ausência de racionalidade na gestão das epidemias e fomes; (iii) a dinâmica simbólico-cultural das biografias e vivências quotidianas, variando consoante a posição dos sujeitos na estrutura social, caracterizou-se no geral por uma forte dependência da lógica colonial, por um fechamento radical de horizontes e pela subsistência difícil (iv) a dinâmica físico-disposicional traduziu, em última análise e em fim de linha, a confluência das dinâmicas anteriores sob a forma genérica de saúde frágil, riscos severos de falha imunológica e morte prematura.
O cenário histórico estrutural pode ser por conseguinte designado como de colonização sistémica insular e fragilização ecológica da vida humana. O ponto focal é aqui representado pelas práticas alimentares como instância antropológica de cruzamento do material e do simbólico; do histórico e do pessoal, do estrutural e do agencial.

Palavras Chave: Alimentação, epidemiologia, ecossistema, dinâmicas históricas, dominação, colonialismo

Nota biográfica
Fernando Humberto
Serra, Professor auxiliar no ISCSP-UTL e investigador no Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP- ISCSP-UTL)Licenciatura em Política Social (ISCSP-UTL), mestrado em Sociologia (ISCSP-UTL) e doutoramento em Educação (especialidade de Sociologia da Educação) pela FC-UL. Entre 1986 e 2008 foi docente na Escola Superior de Educação de Lisboa onde fez formação graduada e pós-graduada de professores, tendo sido também coordenador da licenciatura de Animação Sociocultural. Neste período leccionou igualmente no Instituto Superior de Educação e do Trabalho, no Instituto Superior de Ciências Educativas e na Universidade Aberta. Desde 2008, no ISCSP-UTL, lecciona nas áreas da teoria social, sociologia, educação e cidadania.Os seus principais domínios de publicação centram-se na política e sociologia da educação.