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GESTÃO TRADICIONAL DOS RECURSOS NATURAIS NA GUINÉ-BISSAU

Maria Adélia Diniz
Jardim Botânico Tropical (JBT) – Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)
adeliadiniz@gmail.com

A Guiné-Bissau, com cerca de 36.000 km2 situada na África Ocidental fica localizada na Zona de Transição Regional Guineo-Congolesa/Sudanesa segundo a classificação fitogeográfica de White e na parte Sul sofre influências do Centro Regional de Endemismo Guineo-Congolês. A flora da região litoral sul apresenta estreitas relações com a das terras baixas das vizinhas Guiné, Libéria e Serra Leoa. No Norte, Nordeste e Leste ocorrem florestas abertas secas e savanas arborizadas em mosaico com floresta densa seca. No litoral e no sul predominam as florestas densas sub-húmidas, as florestas abertas, palmares, savanas e extensas áreas de mangal. No interior desenvolvem-se florestas ripárias e nos vales abertos ocorrem “lalas” de água doce.
A situação geográfica, o relevo pouco acentuado, os solos e o clima influenciam o tipo de vegetação. A acção do homem, derrubando as florestas e actuando com queimadas sazonais para utilização dos solos na agricultura itinerante de subsistência condiciona o desenvolvimento dos ecossistemas e diminui a biodiversidade.
Por outro lado as populações recorrem ao meio ambiente para obter as plantas que utilizam na alimentação, na construção das habitações, para fabrico de artefactos e mobiliário e para curar as suas doenças.
Durante mais de uma década participámos em vários projectos, realizando missões de campo na Guiné-Bissau integrados em equipas pluridisciplinares para inventariação da flora, estudo de infestantes das culturas de planalto e de bolanhas, estudos da vegetação conducentes à implementação de parques naturais como o dos mangais de Cacheu, das florestas de Cantanhez e o de Cufada e realizámos inquéritos a curandeiros de várias etnias para conhecimento das plantas mais usadas na medicina tradicional. Todos estes projectos tinham a colaboração de técnicos guineenses pertencentes a instituições governamentais ou ONGs. Como resultado destes estudos e inventariação de todas as folhas de herbário de plantas da Guiné-Bissau existentes no Herbário LISC do IICT foram publicados manuais de infestantes e de plantas medicinais com ilustrações para todas as espécies, uma checklist de plantas vasculares conhecidas na Guiné-Bissau com as utilizações e os nomes vernáculos nas várias etnias totalizando cerca de 1500 espécies, além de vários artigos versando a flora e a utilização das plantas na Guiné-Bissau.

Palavras-chave: Biodiversidade vegetal, etnobotânica, Guiné-Bissau

Nota biográfica
Maria Adélia Diniz, Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de Lisboa (1966), foi Naturalista (1969-1973) e Investigadora (1973-1978) da Universidade de Lourenço Marques, posteriormente Eduardo Mondlane, de cujo Herbário foi Curadora (1974-1978) tendo exercido nela actividade docente (1975-1978) no Curso de Biologia. Foi Investigadora do Instituto de Investigação Científica Tropical desde 1979, e Investigadora Coordenadora de 1998 a 2004. Exerceu os cargos de Directora do Centro de Botânica do IICT de 1998 a Abril 2006 e de Vice-Presidente do Conselho Científico do mesmo Instituto de 2000 a 2004. Aposentada desde 2004, continuou como colaboradora deste Instituto em regime de voluntariado. Tem centrado a sua actividade principal na Botânica Sistemática das regiões tropicais da África Central e Austral, Cabo Verde e Guiné-Bissau contando como outras áreas de interesse a etnobotânica, a etnomedicina, as infestantes das culturas e a vegetação dos mangais. Tem experiência de campo em Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau. A sua obra ascende a mais de uma centena de títulos entre livros, capítulos de livros, artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, em CD-Rom e em publicações electrónicas.