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AVALIAÇÃO DE SUSCEPTIBILIDADE À EROSÃO HÍDRICA NA FACHADA ORIENTAL DA ILHA DE SANTIAGO (CABO VERDE)

Fernando Lagos Costa
Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)
flcosta1955@gmail.com
Maria do Carmo Nunes
Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)
mcarmonunes15@gmail.com

Em Cabo Verde, a erosão dos solos tem constituído uma das componentes mais relevantes da degradação ambiental e têm sido apontados vários factores como principais condicionantes, tais como os declives acentuados, a fraca cobertura vegetal e a ocorrência de chuvadas concentradas e intensas.
As instâncias governamentais antes e depois da independência, conscientes da gravidade que é a perda de solo, implementaram acções de conservação do solo e água, nomeadamente de florestação e de construção de obras de engenharia rural. Os resultados dessas acções foram muito diversificados em termos de retenção de sedimentos e contenção da erosão. Na realidade a implantação de diques em fundos de vales levou a um considerável acréscimo de deposição, no entanto, as medidas aplicadas em vertentes, nem sempre contribuíram para a diminuição da erosão e para a redução das perdas de solo. Estes resultados levam a admitir a necessidade de se efectuarem estudos prévios de avaliação de susceptibilidade à erosão hídrica.
Neste estudo avalia-se a distribuição espacial de susceptibilidade à erosão hídrica em função de condicionantes de erodibilidade e erosividade na fachada oriental da Ilha de Santiago (Cabo Verde). Este sector da Ilha encontra-se directamente exposta aos fluxos pluviogénicos de nordeste, pelo que constitui o sector mais pluvioso de Santiago e, potencialmente, dispõe de condições de maior erosividade. Nesta região predominam os sectores de vertente com declives acentuados e perfis rectilíneos, muito susceptíveis à erosão, no entanto, grandes extensões encontram-se talhadas em rochas resistentes e têm uma densidade de coberto do solo elevada, o que modera as condições gerais de erodibilidade desta região.
Para avaliar a distribuição espacial de susceptibilidade à erosão hídrica recorreram-se aos factores geomorfológicos (declive, perfil e traçado das vertentes), climáticos (intensidade pluviométrica) e de densidade de ocupação do solo, considerados mais relevantes pelos autores que estudaram o fenómeno de erosão hídricaem Cabo Verde, particularmenteem Santiago. Osresultados foram obtidos com recurso a Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e a estatística multivariada.
Da análise da distribuição espacial da susceptibilidade, concluiu-se que a erosão hídrica depende mais das condições de erodibilidade e não tanto da erosividade das precipitações. As regiões de maior susceptibilidade são as que se encontram talhadas em unidades geológicos menos resistentes, os sectores de vertente com traçado côncavo e perfil rectilíneo e as áreas de baixa densidade de coberto vegetal, que correspondem à região sudoeste da fachada oriental e às vertentes dos principais vales. Estas regiões, em grande parte, são as que têm uma maior ocupação agrícola, e por coincidência, são aquelas em que a erosividade das precipitações é mais acentuada, pelo que são as mais afectadas pela erosão hídrica. Em toda a fachada oriental e, em particular, nestas regiões devem evitar-se o remeximento superficial excessivo do solo e práticas agrícolas que favoreçam a retenção de águas pluviais que venham a desencadear processos mais gravosos de erosão hídrica.

Palavras-chave: Erosão hídrica, erosividade, erodibilidade, geoestatística, Santiago (Cabo Verde)

Nota biográfica
Fernando Lagos Costa Investigador Auxiliar do Instituto de Investigação Científica Tropical, com uma dissertação sobre evolução geomorfológica quaternária e atual em Cabo Verde. Licenciado em Geografia e Mestre em Geografia Física e Regional, pela Universidade de Lisboa. Publicou 40 artigos em revistas e em atas de congressos nacionais e internacionais com arbitragem científica sobre dinâmica do relevo, riscos geomorfológicos em regiões vulcânicas e variabilidade climática e condicionantes naturais de risco epidemiológico em países africanos.
Maria do Carmo Nunes, investigadora auxiliar do Instituto de Investigação Científica Tropical, tem vindo a desenvolver a sua actividade em projetos de investigação multidisciplinares, dando a sua colaboração nas áreas de Análise e Modelação Estatística, Sistemas de Informação Geográfica e Detecção Remota aplicados na caracterização de recursos naturais e ambiente de regiões tropicais. Publicou vários artigos científicos e capítulos de livro e participou em eventos científicos nacionais e internacionais.