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COOPERAÇÃO EM SAÚDE NA GUINÉ-BISSAU: ENTRE A INVESTIGAÇÃO E A ACÇÃO

João Blasques Oliveira
Médicos do Mundo – Portugal
joaoblasques@medicosdomundo.pt
Carla F. Rodrigues
Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL)
carla.rodrigues@iscte.pt

Com o objectivo de aumentar o acesso a água potável, saneamento e educação de base, assim como de reduzir a mortalidade infantil causada por doenças infecto-contagiosas de transmissão fecal-oral numa das regiões mais pobres e vulneráveis da Guiné-Bissau, a organização não-governamental Médicos do Mundo Portugal tem em curso um projecto integrado de Água, Higiene e Saneamento (ASH) nas escolas da região de Biombo. Trata-se de um projecto que pretende promover uma intervenção integrada de ASH a nível dos alunos do ensino básico da região, por serem mais susceptíveis de mudar de comportamentos e de facilitar, a longo prazo e em colaboração com os professores, uma alteração das práticas de higiene em toda a região.
De forma a promover o envolvimento comunitário e a assegurar a sua sustentabilidade a nível local, o projecto conta com vários parceiros institucionais locais e com a organização de acções de Informação, Educação e Comunicação (IEC). No entanto, se os materiais de comunicação e promoção de saúde não forem desenhados com base na realidade cultural onde pretendem ser divulgados, recorrendo aos meios de transmissão e circulação mais adequados e influentes, os resultados podem ter impactos limitados. Para o sucesso da implementação dos projectos de cooperação e saúde comunitária, é necessário um conhecimento aprofundado dos factores sociais e comportamentais que influenciam o risco de contração e transmissão de doenças, e que podem inibir ou facilitar modalidades particulares de intervenção, assim como posicionar o problema nos seus contextos sociais, económicos, políticos e culturais. Nesse sentido, foi conduzido um estudo de linha de base sobre Conhecimentos, Atitudes e Práticas relativamente a ASH, junto de uma amostra de 140 professores e de 395 alunos das 14 escolas beneficiárias do projecto.
Nesta comunicação pretende-se apresentar os objectivos e principais resultados do projecto em curso, assim como enquadrar e problematizar o papel da investigação no contexto de projectos de intervenção e cooperação na área da saúde. Se, por um lado, este tipo de estudos permite adaptar as estratégias IEC com vista à mudança de comportamentos e adopção de práticas saudáveis por parte das comunidades beneficiárias do projecto, assim como assegurar uma base para a monitorização e avaliação da intervenção, por outro lado, a eficácia da sua aplicação enfrenta vários desafios, resultantes das especificidades do contexto, não só ao nível de recursos humanos, como económicos, linguísticos, etc. É em torno destas questões que se propõe direccionar o debate.

Palavras-chave: Intervenção, investigação, saúde, Guiné-Bissau, escolas

Notas biográficas
João Carlos Blasques de Oliveira, 59 anos, natural de Angola. Médico, com mais de 30 anos de experiencial profissional, na área de Saúde em Países em Desenvolvimento. Dirigiu os serviços de saúde num município e duas províncias do centro de Angola, o Departamento de Atenção Primária de Saúde da DNSP e o 1º projecto de Saúde do Banco Mundial em Angola. Desde 1999 a trabalhar em ONG, nos Estados Unidos e Portugal e como consultor do Banco Mundial. Experiência em SMI, Gestão em Saúde e Controlo de Endemias incluindo VIH e Malária.
Carla F. Rodrigues. Socióloga, investigadora do CIES-IUL e docente no ISCSEM e na ESSEM da Egas Moniz – Cooperativa de Ensino Superior. Tem desenvolvido investigação no domínio da sociologia da saúde e da educação, assim como em projectos de saúde e desenvolvimento em contextos africanos. Mais recentemente tem trabalhado sobre a temática dos consumos terapêuticos e da farmacologização das sociedades contemporâneas.