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A MISSÃO ANTROPOLÓGICA E ETNOLÓGICA DA GUINÉ – OBJECTIVOS E RESULTADOS

Maria da Conceição Rodrigues
Investigador / Arqueólogo Colaborador do IICT
conceicaorodrigues@clix.pt  

Pretendemos com o nosso trabalho, chamar a atenção para a importância do conjunto de elementos materiais arqueológicos recolhidos na Guiné-Bissau, em particular, na Caverna / Furna de Nhampasseré, localizada em Gabu, no já tão afastado ano de 1947, durante a 2.ª campanha da Missão Antropológica e Etnológica da Guiné (MAG), criada na antiga Junta de Investigações do Ultramar (JIU), chefiada por Amilcar Mateus.
Este acervo patrimonial, constituído por artefactos líticos e fragmentos de cerâmica dita “tradicional”, recolhidos durante a primeira “intervenção arqueológica” naquela Caverna, a par das recolhas e registos de carácter Etnográfico e Antropométrico efectuados durante as três fases do trabalho de campo desta Missão, que decorreram respectivamente entre: 26 de Dezembro de1945 a20 de Janeiro de 1946 – numa primeira Jornada Preliminar que foi chefiada por Mendes Corrêa; as campanhas da MAG chefiadas por A. Mateus tiveram lugar – a 1.ª entre Abril e Agosto de1946, a2.ª e última entre Dezembro de1946 afins de Maio de 1947-, encontra-se hoje no Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), para onde foi transferido pela autora do ex-Instituto de Antropologia da Universidade do Porto, onde estava em depósito, para poder ser estudado e salvaguardado.
Assinalamos o significado da localização de um arqueossítio que documentasse o longo passado do “Homem” naquele território da África Ocidental, que levou a que tivesse sido implementada no âmbito da renovada política-científica da Junta de Investigações do Ultramar, uma Missão de estudos à Guiné nos finais do ano de1945. Aintenção era dar ao conhecimento “científico” a presença de artefactos que comprovassem as actividades do “Homem Préhistórico”, como resultado da investigação no terreno, e assim, poder ser oficialmente apresentado o interesse de Portugal pelos territórios que administrava, nomeadamente na Conferência Internacional dos Africanistas Ocidentais em Bissau, nos finais de 1947. Esta associação de ciência e política, que foi concretizada, era vista como prioritária pelo Ministro das Colónias à época e também pela Comissão Executiva da Junta. O objectivo do trabalho, centra-se na divulgação e valorização de um espólio praticamente inédito de artefactos líticos e cerâmica “tradicional, com significado no domínio da Arqueohistória da África Ocidental, além de alertar para a necessidade do seu estudo e até conduzir ao seu alargamento com uma nova intervenção arqueológica, em moldes actuais, para se obter um quadro crono-cultural com alguma credibilidade no contexto arqueológico da África Ocidental.

Palavras chave: Arqueohistória, Guiné-Bissau, caverna / furna de Nhampasseré, artefactos líticos, cerâmica  “tradicional”.

Nota biográfica
Maria da Conceição Lopes Rodrigues,
natural de Lisboa, é doutorada em Letras, área de História, na especialidade de Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É Investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), tendo entrado para a antiga Junta de Investigações do Ultramar (JIU), em 1968.
Os seus estudos em diferentes Projectos distribuem-se por actividades de pesquisa e desenvolvimento, de investigação no âmbito da metodologia arqueohistórica nos domínios da Idade da Pedra e Idade do Ferro africana na África Austral, com intervenções arqueológicas de campo, preparação de trabalhos para publicação e apresentação em reuniões científicas, além de outras acções relativamente a Angola e Moçambique, e no mundo asiático dirigidos para Timor-Leste. O mesmo se verifica na África Ocidental quanto a Cabo Verde e mais recentemente em relação à Guiné-Bissau. Participou em reuniões científicas da especialidade em Portugal e no Estrangeiro. Dispõe de trabalhos editados em Portugal e no Estrangeiro, sobre a temática arqueohistórica relativamente ao mundo africano e asiático, Moçambique, Cabo Verde e Timor, além de Portugal, as quais permitem manter um inter-relacionamento com outros investigadores. Presentemente vem colaborando no desenvolvimento de Projectos em curso no IICT – com actividades de pesquisa e investigação a par da recolha, transferência e inventariação dos diversos elementos materiais resultantes das antigas Missões a Angola, Moçambique, Timor e Guiné que se encontram já inseridos no acervo patrimonial deste Instituto.