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INTERACÇÕES AMBIENTE, ANIMAIS DOMÉSTICOS, PARASITAS NA ILHA DE SANTIAGO (CABO VERDE)*

M. Virgínia Crespo
Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Santarém
maria.virginia@esa.ipsantarem.pt
Fernanda Rosa
Instituto de Investigação Científica Tropical, JBT / Zoologia
fhjrosa@gmail.com

Em Cabo Verde, e em particular na Ilha de Santiago, a localização geográfica e a colonização humana tiveram como consequência a introdução de uma grande diversidade de espécies com diferentes origens zoogeográficas, nomeadamente de vertebrados e dos seus parasitas. As parasitoses formam um sistema complexo, no qual o hospedeiro vertebrado (HV), o parasita e, quando existem, o seu vetor ou hospedeiro intermediário (HI), estão condicionados por interacções dinâmicas entre si e o meio ambiente. Nas doenças provocadas por trematódeos, parte do ciclo biológico destes parasitas processa-se em moluscos gastrópodes aquáticos, HI, condicionados pela presença de água doce. Estão, assim, mais dependentes da repartição espacial, do regime anual e da variabilidade inter-anual das precipitações e do volume e escoamento hídricos superficiais. Entre 1994 2009, reconheceram-se 23 ecossistemas aquáticos dulçaquícolas com condições bio e edafo climáticas para a instalação e a subsistência de populações de moluscos, tais como Lymnaea natalensis (Lymnaeidae) e Bulinus forskalii (Planorbidae), responsáveis pelos ciclos de vida e sobrevivência de alguns parasitas, nomeadamente as espécies africanas residentes Fasciola gigantica e Schistosoma bovis. A importância daqueles reflete-se nos valores de prevalência intra-molusco de 6,15% e de 18,23%, e nos bovinos, seus HV preferenciais, de 50,00% e 6,67%, respectivamente. A transmissão dos parasitas é facilitada pela grande mobilidade ou pela capacidade de flutuação evidenciada pelas cercárias emitidas ou recentemente enquistadas, pelo comportamento dos HV, pela escassez das colecções de água e pela dependência destes recursos. Por outro lado, a antropização destas colecções, associada a alterações climáticas locais tem contribuído para um decréscimo do número de biótopos dulçaquícolas, de cerca de 50,00% no total dos biótopos identificados nas últimas quatro décadas. Assim, a alteração do padrão de contacto das populações com as colecções de água de escoamento superficial, por modificações introduzidas ou em fase de implementação, tendo em vista a racionalização da utilização dos escassos recursos hídricos, irá continuar a repercutir-se numa diminuição, quer dos biótopos de Fasciola gigantica/Lymnaea natalensis, e de Schistosoma bovis/Bulinus forskalii, quer das infecções nas populações de hospedeiros vertebrados simpátricas.

Palavras-chave: Biótopos aquáticos, Fasciola gigantica/Lymnaea natalensis, Schistosoma bovis/Bulinus forskalii, Ilha de Santiago (Cabo Verde).

*Estudos financiados pela JNICT (1993, 1994), pelo Instituto da Cooperação Portuguesa (1995-1999) e pelo GRICES (1999)

Nota biográfica
Fernanda Rosa
, licenciada em Medicina Veterinária, Investigadora do IICT, desde 1992. Principais linhas de estudo: parasitas emergentes de biótopos aquáticos e as suas repercussões em saúde pública, e contaminação ambiental por parasitas de animais em meio urbano e em áreas naturais ( Guiné-Bissau, Cabo Verde e Portugal). Participação e coordenação de projectos de cooperação e de investigação e cerca de duas dezenas de trabalhos publicados