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DISTRIBUIÇÃO ESPÁCIO-TEMPORAL DA PRECIPITAÇÃO NA FACHADA ORIENTAL DA ILHA DE SANTIAGO (CABO VERDE)

Maria do Carmo Nunes
Instituto de Investigação Científica Tropical
mcarmonunes15@gmail.com
Fernando Lagos Costa
Instituto de Investigação Científica Tropical
flcosta1955@gmail.com
António Jorge de Sousa
CERENA, Instituto Superior Técnico, Lisboa, Portugal
ajsousa@ist.utl.pt

Em Cabo Verde, um país de características semi-áridas sahelianas, onde predominam as culturas de sequeiro, o conhecimento da distribuição espacial da precipitação é importante para a produtividade agrícola e o desenvolvimento rural.
A precipitação neste arquipélago tem vindo a ser alvo da maioria dos estudos climáticos, sendo a Ilha de Santiago objecto da maioria dos trabalhos. No entanto, a avaliação da distribuição espacial da precipitação, à escala regional e local é parca, assim como os estudos da análise de valores extremos e da intensidade da precipitação.
Em Cabo Verde, durante os três meses da estação húmida (Julho, Agosto e Setembro), os episódios chuvosos ocorrem num escasso número de dias, na forma de aguaceiros intensos e concentrados, responsáveis por uma erosão hídrica activa, que cobre extensas áreas conduzindo à degradação do solo. Devido à grande irregularidade topográfica a distribuição e intensidade das chuvadas têm uma grande variabilidade espacial, que se torna fundamental avaliar para compreender a sua diversidade regional.
No presente estudo pretende-se divulgar os principais resultados obtidos de vários trabalhos sobre a distribuição espacial e temporal da precipitação e a determinação dos seus valores extremos, na fachada oriental da Ilha de Santiago, efectuados com base nos valores medianos da precipitação, relativos a um período de 20 anos, de 77 postos udométricos.
A modelização da precipitação foi realizada por métodos geoestatísticos, de krigagem e de co-krigagem, recorrendo à variável auxiliar altitude, correlacionada com a precipitação, obtida do modelo digital de terreno (MDT). Além disso, foi efectuada krigagem morfológica, sobre a variável indicatriz, que permitiu cartografar as áreas onde a precipitação atinge valores extremos, acima de determinados limiares, produzindo mapas de probabilidades desses valores extremos e determinar as zonas de incerteza em torno das manchas obtidas de cada limiarização. A cartografia dos valores estimados foi produzida com a integração dos resultados num Sistema de Informação Geográfica (SIG).
A cartografia dos valores estimados mostra que as precipitações mais elevadas ocorrem nos sectores das cabeceiras, a oeste e na região mais a sul e sudeste, enquanto as mais baixas se encontram nas regiões próximas do litoral, na zona leste. Os valores mais elevados relacionam-se com as maiores altitudes e com as vertentes mais expostas aos fluxos pluviogénicos de nordeste. Verifica-se ainda que, o maior número de dias com chuva e a maior intensidade pluviométrica não ocorreram nos locais mais pluviosos. Na realidade, as maiores intensidades pluviométricas e o maior número de dias de precipitação observam-se nas vertentes orientais dos maciços montanhosos mais elevados, onde se localizam as cabeceiras das principais bacias, bem como os primeiros alinhamentos de relevo do sector mais a sul, mais directamente expostos aos fluxos pluviogénicos de nordeste.

Palavras-chave: Precipitação, valores extremos, geoestatística, SIG, Cabo Verde

Nota biográfica
Maria do Carmo Nunes, investigadora auxiliar do Instituto de Investigação Científica Tropical, tem vindo a desenvolver a sua actividade em projetos de investigação multidisciplinares, dando a sua colaboração nas áreas de Análise e Modelação Estatística, Sistemas de Informação Geográfica e Detecção Remota aplicados na caracterização de recursos naturais e ambiente de regiões tropicais. Publicou vários artigos científicos e capítulos de livro e participou em eventos científicos nacionais e internacionais.
Fernando Lagos Costa
Investigador Auxiliar do Instituto de Investigação Científica Tropical, com uma dissertação sobre evolução geomorfológica quaternária e atual em Cabo Verde. Licenciado em Geografia e Mestre em Geografia Física e Regional, pela Universidade de Lisboa. Publicou 40 artigos em revistas e em atas de congressos nacionais e internacionais com arbitragem científica sobre dinâmica do relevo, riscos geomorfológicos em regiões vulcânicas e variabilidade climática e condicionantes naturais de risco epidemiológico em países africanos.