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ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES: CONTAR COM IRONIA A RELAÇÃO HOMEM / MULHER NO ESPAÇO HUMANO MINDELENSE

Maria Manuela de Araújo
Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa
manuelajaraujo@gmail.com

O recensão crítica que se apresenta trata a relação do par Virgílio e Nita, no conto «Noite de Vento», de António Aurélio Gonçalves, com o objectivo de uma melhor compreensão da relação homem/mulher no espaço humano da cidade do Mindelo, S. Vicente. A formulação do olhar crítico aqui presente será efectuada à luz de um suporte conceptual, de índole social, cultural e literária, cujas fontes são da autoria de Francesco Alberoni, Roland Barthes e Victor Seidler. A escolha desta temática deve-se ao facto de o texto implicar na sua arte narrativa uma perspicácia analítica de comportamentos regulados por valorações determinadas pelo género humano, possibilitando uma «indagação perscrutante do indivíduo urbano mindelense», um traço que, segundo Alberto de Carvalho, distingue este escritor dos seus contemporâneos fundadores da revista Claridade.
No tecido diegético do conto a relação que Virgílio estabelece com Nita, e vice‑versa, é um lugar humano em que os papéis dramatizados por indivíduos do sexo oposto permitem uma diagnose social e cultural da cidade insular cabo‑verdiana, perturbada na individualidade dos seus sujeitos pelo sentimento designado de aborrecimento.
O aborrecimento vai-se construindo como figura discursiva que justifica a encenação textual de uma conjugalidade contingente, factual, a qual ocupa a função de entretenimento. Virgílio acredita na convenção do casamento como projecto racional de vida. Nita não acredita na conjugalidade como essência do feminino. Se Virgílio experimenta o modelo do ajuntamento, para desenfastiar da monotonia mindelense, enquanto espera ser surpreendido pela evidência do matrimónio, Nita, pela mesma razão, tem unicamente nos seus horizontes de vida seduzir e ser seduzida, como modo de levar a vida, ou seja, o prazer do desafio e desapego, de duração temporária.
Esta figura feminina desenha‑se no jogo transitório da disputa, entre os papéis de sujeito e objecto de desejo, oscila entre sujeito activo na conquista, ao invés do mito antigo ocidental, a sedutora que nada quer, mais de acordo com o mito moderno.
No conto de António Aurélio Gonçalves, «Noite de Vento», a ficção tecida à volta do par Virgílio e Nita constrói a figura discursiva do aborrecimento insular. Este serve de pretexto ao erotismo anárquico, mas simétrico, que regula uma relação socialmente tolerada, dentro da moralidade mindelense.

Palavras-chave: Feminino, masculino, aborrecimento, erotismo, moralidade.

Nota biográfica
Maria Manuela J. C. de Araújo
nasceu em Luanda. É doutorada em Estudos Literários e mestre em Estudos Anglísticos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou o seu doutoramento, Diálogos Literários entre a África e os E.U.A. no Despertar dos Nacionalismos Africanos. Tem vindo a publicar em revistas literárias e a participar em eventos científicos.