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UM PROJETO DE (RE)CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO EM CABO VERDE: O RELATÓRIO DO ENGENHEIRO ANTÓNIO CARLOS ANDRÉIS DE 1780

Maria João Soares
Centro de História – Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT)
mariajoaosoares@yahoo.co.uk

À medida que se caminha no século XVIII o arquipélago de Cabo Verde encontrava-se um pouco entregue a si próprio, dado que as ligações políticas e económicas com o Reino se foram tornando cada vez mais escassas. Em Portugal não havia uma estratégia para o arquipélago no quadro atlântico em que as ilhas se tinham tornado marginais e meras fornecedoras de aguada e refresco para os navios estrangeiros que escalavam Cabo Verde e dominavam o comércio miúdo local, a maior parte das vezes, por contrabando.
O poder tinha sido tomado de assalto pela elite local que dominava câmara, milícia, misericórdia e oficialato e aproveitava as frequentes interinidades dos governadores e dos ouvidores para se apoderar do poder soberano e, quando aqueles exerciam os seus mandatos manietavam o poder colonial através de uma estratégia deliberada de cisão da esfera de competências dos governadores e dos ouvidores ou do seu assassinato, quando ameaçavam a autonomia dos potentados locais.
Nos círculos políticos do Reino pensava-se em alguns meios que as ilhas eram inúteis, que todos os gastos nelas seriam sempre sem préstimo mas que se deveriam manter «(…) porque nelas se conserva o nome de Deus e do Rei.»
O consultado pombalino teve ecos diretos em Cabo Verde não só com a ida de um sindicante com poderes alargados mas sobretudo com a «privatização» das ilhas» às mãos da companhia do Grão Pará e Maranhão, através da qual se procurava reintegrar Cabo Verde no eixo atlântico negreiro Guiné-Brasil como plataforma de fornecimento de panos de algodão à costa africana e de urzela aos mercados do norte da Europa.
A sublevação da elite revoltosa foi solucionada com a «inconfidência caboverdiana» e os seus maiorais foram sentenciados aos patíbulo ou ao enforcamento em Lisboa pelo assassinato do ouvidor João Vieira de andrade em 1762, sendo as suas cabeças expostas na vila da Praia para servir de exemplo.
Contudo, o projeto pombalino não vingou em Cabo Verde com a falência da companhia do Grão Pará e Maranhão e da empresa que lhe sucedeu e sobretudo com a fome geral de 1773-1775 que dizimou entre 25 a 40 % da população.
Em Portugal, Cabo Verde afigurava-se depois desta calamidade como um território cujos recursos naturais e populacionais eram desconhecidos, não se recordando já o capital de conhecimentos acumulados nos séculos XVI e XVII. O governador Saldanha Lobo (1770-1776) foi encarregue de dirigir os trabalhos de um técnico altamente qualificado – o capitão-engenheiro António Carlos Andréis que fora degredado para o arquipélago depois de participar nos trabalhos de reconstrução da baixa lisboeta.
O objetivo desta comunicação será o questionário subjacente ao relatório de 1780 do engenheiro Andréis, bem como o teor do mesmo, tal como o projeto político-ideológico a que veio dar resposta.

Palavras-chave: Iluminsmo, conhecimento do território e seus agentes, agricultura, pecuária, fomes.

Nota biográfica
Maria João Soares,
Investigadora Auxilar do Centro de História do Instituto de Investigação Científica Tropical que integra desde 1993, tendo colobarado, entre outros, na elaboração, do II e III volumes da História Geral de Cabo Verde. Tem com áreas centrais de investigação a história de Cabo Verde dos séculos XV a XVIII, no domínio da igreja e missionação, temas nos quais prestou provas de acesso a investigadora auxiliar no IICT em 2005. Desde esta data tem desenvolvido como outras temáticas de investigação a crioulização, o estudo das elites, presença estrangeira, estudo das artes de curar e plantas medicinais e missões científicas no século XVIII.

 

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